sábado, 24 de setembro de 2011

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS REPRESENTANTES DE VÁRIAS ETNIAS
DE CIGANOS DA EUROPA POR OCASIÃO
DO QUINTO ANIVERSÁRIO DO MARTÍRIO
DO BEATO ZEFERINO GIMÉNEZ MALLA 
 
Sala Paulo VI
Sábado, 1
1 de Junho de 2011 

Venerados Irmãos
Prezados irmãos e irmãs
O Del si tumentsa! [O Senhor esteja convosco!].
É para mim uma grande alegria encontrar-me convosco e dar-vos as cordiais boas-vindas, por ocasião da vossa peregrinação ao túmulo do Apóstolo Pedro. Estou grato ao Arcebispo D. Antonio Maria Vegliò, Presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, pelas palavras que me dirigiu também em vosso nome e por ter organizado este evento. Faço extensiva a expressão do meu agradecimento inclusive à Fundação «Migrantes», da Conferência Episcopal Italiana, à Diocese de Roma e à Comunidade de Santo Egídio, por terem colaborado para realizar esta peregrinação e por quanto levam a cabo quotidianamente para o vosso acolhimento e integração. Dirijo um «obrigado» particular a vós, que oferecestes os vossos testemunhos, verdadeiramente significativos.
Viestes a Roma de todas as regiões da Europa, para manifestar a vossa fé e o vosso amor a Cristo, à Igreja — que é uma casa para todos vós — e ao Papa. Em 1965, o Servo de Deus Paulo VI dirigiu aos Ciganos estas palavras inesquecíveis: «Na Igreja, não vos encontrais à margem mas, sob certos aspectos, no centro, no coração. Vós estais no coração da Igreja». Também eu vos repito hoje carinhosamente: vós estais na Igreja! Sois uma amada porção do Povo de Deus peregrino e recordais-nos que «não temos aqui uma cidade permanente, mas estamos em busca da futura» (Hb13, 14). Também a vós chegou a mensagem de salvação, à qual respondestes com fé e esperança, enriquecendo a comunidade eclesial de fiéis leigos, sacerdotes, diáconos, religiosas e religiosos ciganos. O vosso povo ofereceu à Igreja o Beato Zeferino Giménez Malla, de quem celebramos o sesquicentenário do nascimento e o septuagésimo quinto aniversário do martírio. A amizade com o Senhor fez deste Mártir uma testemunha autêntica da fé e da caridade. Com a mesma intensidade com a qual adorava a Deus e descobria a sua presença em cada pessoa e em cada acontecimento, o Beato Zeferino amava a Igreja e os seus Pastores. Terciário franciscano, permaneceu fiel ao seu ser cigano, à história e à identidade da sua própria etnia. Tendo casado segundo a tradição dos ciganos, juntamente com a esposa decidiu corroborar o vínculo na Igreja, mediante o sacramento do Matrimónio. A sua profunda religiosidade encontrava expressão na participação diária na Santa Missa e na recitação do Rosário. Precisamente o Terço, que conservava sempre no bolso, tornou-se causa da sua detenção e fez do Beato Zeferino um autêntico «mártir do Rosário», porque não permitiu que lho tirassem da mão nem sequer em ponto de morte. Hoje, o Beato Zeferino convida-vos a seguir o seu exemplo e indica-vos o caminho: a dedicação à oração e de modo particular ao Rosário, o amor pela Eucaristia e pelos demais Sacramentos, a observância dos mandamentos, a honestidade, a caridade e a generosidade para com o próximo, especialmente os pobres; isto fortalecer-vos-á perante o risco que as seitas ou outros grupos ponham em perigo a vossa comunhão com a Igreja.
A vossa história é complexa e, nalgumas épocas, dolorosa. Sois um povo que, ao longo dos séculos passados, não viveu ideologias nacionalistas, não aspirou por possuir uma terra nem por dominar outras populações. Permanecestes sem pátria e considerastes idealmente todo o Continente como a vossa casa. Todavia, persistem problemas graves e preocupantes, como as relações muitas vezes difíceis com as sociedades em que viveis. Infelizmente, ao longo dos séculos conhecestes o sabor amargo do não-acolhimento e, por vezes, da perseguição, como aconteceu durante a segunda guerra mundial: milhares de mulheres, homens e crianças foram barbaramente mortos nos campos de extermínio. Foi — como vós dizeis — o Porrájmos, a «Grande Devoração», um drama ainda pouco reconhecido e cujas proporções se calculam com dificuldade, mas que as vossas famílias trazem impressas no coração. Durante a minha visita ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, no dia 28 de Maio de 2006, rezei pelas vítimas da perseguição e inclinei-me diante da lápide em língua romani, que recorda as vossas vítimas. A consciência europeia não pode esquecer tanta dor! Nunca mais o vosso povo seja objecto de vexações, de rejeição e de desprezo! Quanto a vós, procurai sempre a justiça, a legalidade e a reconciliação, e esforçai-vos por não serdes jamais causa do sofrimento dos outros!
Hoje, graças a Deus, a situação está a mudar: novas oportunidades abrem-se à nossa frente, enquanto adquiris uma renovada consciência. Ao longo do tempo, criastes uma cultura com expressões significativas, como a música e o canto, que enriqueceram a Europa. Muitas etnias já não são nómades, mas procuram a estabilidade, com novas expectativas diante da vida. A Igreja caminha convosco e convida-vos a viver em conformidade com as exigências comprometedoras do Evangelho, confiando na força de Cristo, em vista de um futuro melhor. Também a Europa, que reduz as fronteiras e considera riqueza a diversidade dos povos e das culturas, vos oferece renovadas possibilidades. Prezados amigos, convido-vos a escrever juntos uma nova página de história para o vosso povo e para a Europa! A busca de uma morada e de um trabalho dignos, e de instrução para os vossos filhos, são as bases sobre as quais é preciso construir aquela integração da qual haveis de haurir benefícios para vós e para toda a sociedade. Oferecei também vós a vossa colaboração concreta e leal, a fim de que as vossas famílias se insiram dignamente no tecido civil europeu! Numerosos entre vós são as crianças e os jovens que desejam instruir-se e viver com os outros e como os outros. Olho para eles com carinho especial, convencido de que os vossos filhos têm direito a uma vida melhor. O seu bem seja a vossa maior aspiração! Conservai a dignidade e o valor das vossas famílias, pequenas igrejas domésticas, a fim de que sejam verdadeiras escolas de humanidade (cf. Gaudium et spes52). Por sua vez, as instituições devem esforçar-se por acompanhar adequadamente este caminho.
Enfim, também vós sois chamados a participar de forma concreta na missão evangelizadora da Igreja, promovendo a obra pastoral nas vossas comunidades. A presença no meio de vós de sacerdotes, diáconos e pessoas consagradas, que pertencem às vossas etnias, constitui um dom de Deus e um sinal positivo do diálogo das Igrejas particulares com o vosso povo, que é necessário sustentar e desenvolver. Tende confiança e prestai ouvidos a estes vossos irmãos e irmãs, e juntos oferecei-lhes o coerente e jubiloso anúncio do amor de Deus pelo povo cigano, assim como por todos os povos! A Igreja deseja que todos os homens se reconheçam filhos do mesmo Pai e membros da mesma família humana. Estamos na Vigília de Pentecostes, quando o Senhor efundiu o seu Espírito sobre os Apóstolos, que começaram a anunciar o Evangelho nas línguas de todos os povos. O Espírito Santo derrame os seus dons em abundância sobre todos vós, as vossas famílias e comunidades espalhadas pelo mundo, tornando-vos testemunhas generosas de Cristo Ressuscitado. Maria Santíssima, tão querida ao vosso povo, e que vós invocais como «Amari Devleskeridej», «Nossa Mãe de Deus», vos acompanhe pelos caminhos do mundo, e o Beato Zeferino vos sustente com a sua intercessão.
Agradeço de coração a todos vós, que viestes aqui à Sé de Pedro para manifestar a vossa fé e o vosso amor pela Igreja e pelo Papa. O Beato Zeferino seja para todos vós exemplo de uma existência vivida para Cristo e para a Igreja, na observância dos mandamentos e no amor ao próximo. O Papa está próximo de cada um de vós e recorda-vos nas suas preces. O Senhor vos abençoe, bem como às vossas comunidades, às vossas famílias e ao vosso futuro. O Senhor vos conceda saúde e sorte. Permanecei com Deus!
Obrigado! E feliz Pentecostes a todos vós!

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A arte de fazer amigos

Pasquale Iónata
Psicólogo Membro do Movimento dos Focolares

- Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que as minhas referências são exclusivamente psicológicas, não têm a pretensão de esgotar toda a beleza da amizade e toda a profundidade da doação, uma das experiências humanas mais elevadas.
Deparei certa vez com uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional para a Educação, dos Estados Unidos, na qual perguntaram a mil pessoas na faixa dos 30 anos se elas achavam que a educação oferecida pelas escolas superiores dotava os educandos das capacidades necessárias para enfrentar o mundo real. Mais de 80% dos entrevistados responderam: "De modo algum".
A pesquisa também perguntava o que essas pessoas gostariam de ter aprendido. As respostas mais recorrentes diziam respeito às capacidades necessárias para desenvolver relacionamentos: 1) como relacionar-se melhor com as pessoas com as quais se vive; 2) como encontrar e manter um trabalho; 3) como administrar os conflitos; 4) como ser bons pais; 5) como entender o desenvolvimento normal de uma criança; 6) como administrar as próprias finanças; 7) como compreender o sentido da vida.
Eu diria que existem várias capacidades fundamentais para tratar as pessoas e transformá-las em amigos. A primeira em absoluto, na minha opinião, pode ser expressa com o ditado "se queres o mel, não destruas a colméia". Em outras palavras: no relacionamento com os outros não adianta criticar condenar nem recriminar. A crítica é perigosa porque fere o orgulho das pessoas e faz com que elas se sintam impotentes e fiquem ressentidas. Skinner, psicólogo famoso em todo o mundo, provou experimentalmente que um animal aprende muito mais rapidamente quando é recompensado pelos seus acertos do que quando é punido pelos seus erros.
Devemos nos lembrar de que muitas vezes lidamos com pessoas que não são governadas pela lógica, mas por paixões impregnadas de idéias preconcebidas e movidas pelo orgulho e pelas vaidades. Qualquer idiota é capaz de condenar, criticar, recriminar. De fato, a maioria o faz. Mas é necessário ter força de vontade e autocontrole para compreender e perdoar.
Outra capacidade importante para construir relacionamentos sólidos é saber que o único modo de fazer-se ouvir pelos outros é falar em seus próprios termos daquilo que eles desejam, ou seja, ver as coisas do ponto de vista do outro.
Mas como fazer para sermos sempre "bem recebidos"? Podemos encontrar uma resposta observando a técnica do maior conquistador de amigos que o mundo já conheceu: o cão. Ele é o único animal que não trabalha para viver. A galinha tem de botar ovo, a vaca deve produzir leite, o canarinho deve no mínimo cantar... O cão vive do amor que dá. Não precisa ler um livro de psicologia para entender a grande lição de vida que seu instinto lhe ensina: podemos conquistar mais amigos em dois meses mostrando-nos interessados pelos outros do que em dois anos tentando induzir os outros a interessarem-se por nós. Se quisermos conquistar amigos, devemos nos esforçar em fazer pelos outros coisas que exigem tempo, energia, altruísmo e boas intenções.
Um terceiro modo de nos tornarmos simpático aos outros é sorrir. É por isto que os cães são tão queridos: quando vêem os seus donos, ficam loucos de alegria. Se quisermos que as pessoas fiquem felizes quando estão conosco, temos de demonstrar que estamos felizes por nos encontrarmos na companhia delas.
Lembro-me ainda de outra maneira para conquistar amigos: ser um bom ouvinte e encorajar os outros a falarem de si. Às vezes uma simples dor de dente pode preocupar uma pessoa muito mais do que a grande carestia que faz milhões de vítimas na China, e uma espinha no pescoço pode ser mais incômoda do que 50 enchentes na Índia. Pense nisso na próxima vez que começar a conversar com alguém. Lembre-se: se quiser ser um bom interlocutor, seja antes de mais nada um ouvinte atento.
Enfim, como tornar-se simpático aos outros? Existe uma norma muito importante que regula os nossos relacionamentos: "Sempre transmita aos outros a sensação de que eles são importantes". O desejo de ser valorizado é uma necessidade primária da natureza humana.
Todos temos necessidade de aprovação por parte das pessoas com as quais convivemos, todos queremos ver reconhecida a nossa dignidade. Precisamos nos sentir importantes no nosso pequeno mundo. Não se trata de bajulações falsas, falo de aprovações sinceras. Sigamos então esta regra de ouro: façamos aos outros aquilo que gostaríamos que fosse feito a nós.
23/9/2011
Fonte:http://www.encontrocomcristo.com.br
PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI
 NO ENCERRAMENTO DO MÊS MARIANO
 NA GRUTA DE NOSSA SENHORA DE LOURDES
 NOS JARDINS DO VATICANO
Terça-feira, 31 de Maio de 2011

Prezados irmãos e irmãs
É com prazer que me uno a vós em oração, aos pés da Virgem Santa, que hoje contemplamos na Festa da Visitação. Saúdo e agradeço ao Senhor Cardeal Angelo Comastri, Arcipreste da Basílica de São Pedro, aos Purpurados e aos Bispos presentes, assim como a todos vós que estais aqui congregados esta tarde. No encerramento do mês de Maio, queremos unir a nossa voz à de Maria, no seu próprio cântico de louvor; juntamente com Ela, queremos magnificar o Senhor pelas maravilhas que Ele continua a realizar na vida da Igreja e de cada um de nós. De modo particular, foi e permanece para todos um motivo de grande alegria e gratidão o facto de termos iniciado este mês mariano com a memorável Beatificação de João Paulo II. Que grandiosa dádiva de graça foi, para a Igreja inteira, a vida deste grande Papa! O seu testemunho continua a iluminar as nossas existências e serve-nos de estímulo para ser discípulos do Senhor, a segui-lo com a coragem da fé, a amá-lo com o mesmo entusiasmo com que ele lhe entregou a sua própria vida.
Meditando hoje a Visitação de Maria, somos levados a ponderar precisamente sobre esta coragem da fé. Aquela que Isabel recebe na sua casa é a Virgem, que «acreditou» no anúncio do Anjo e respondeu com fé, aceitando de modo intrépido o desígnio de Deus para a sua vida e acolhendo desta forma a Palavra eterna do Altíssimo. Como já ressaltava o meu Beato Predecessor, na Encíclica Redemptoris Materfoi mediante a fé que Maria pronunciou o seu fiat, que «se abandonou a Deus sem reservas e “se consagrou totalmente a si mesma como serva do Senhor, à pessoa e à obra do seu Filho”» (n. 13; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium,56). Por isso ao saudá-la, Isabel exclama: «Bem-aventurada és tu que creste, dado que se hão-de cumprir as coisas que te foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45). Maria verdadeiramente acreditou que «a Deus nada é impossível» (v. 37) e, fortalecida por esta confiança, deixou-se guiar pelo Espírito Santo na obediência quotidiana aos seus desígnios. Como não desejar, para a nossa vida, o mesmo abandono confiante? Como poderíamos eximir-nos daquela bem-aventurança, que nasce de uma familiaridade tão íntima e profunda com Jesus? Por isso, dirigindo-nos hoje à «cheia de graça», peçamos-lhe que nos conceda também a nós, da Providência divina, poder pronunciar todos os dias o nosso «sim» aos desígnios de Deus, com a mesma fé humilde e simples com que Ela o pronunciou. Ela que, acolhendo em si mesma a Palavra de Deus, se abandonou a Ele sem reservas, nos oriente para uma resposta cada vez mais generosa e incondicional aos seus desígnios, mesmo quando neles somos chamados a abraçar a Cruz.
Neste tempo pascal, enquanto invocamos do Ressuscitado o dom do seu Espírito, confiemos a Igreja e o mundo inteiro à intercessão materna de Nossa Senhora. Maria Santíssima, que no Cenáculo invocou juntamente com os Apóstolos o Consolador, obtenha para cada baptizado a graça de uma vida iluminada pelo mistério do Deus crucificado e ressuscitado, o dom de saber aceitar sempre na própria existência o senhorio daquele que, mediante a sua Ressurreição, derrotou a morte. Estimados amigos, concedo de coração a Bênção Apóstolica a cada um de vós, aos vossos entes queridos e, de maneira particular, àqueles que sofrem.

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PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI
NO FINAL DA VIA-SACRA NO COLISEU
Monte Palatino
Sexta-feira Santa, 22 de Abril de 2011

Amados irmãos e irmãs,
Esta noite, na fé, acompanhámos Jesus, que percorre o último trecho do seu caminho terreno, o trecho mais doloroso: o do Calvário. Ouvimos o alarido da multidão, as palavras da condenação, o ludíbrio dos soldados, o pranto da Virgem Maria e das outras mulheres. Agora mergulhámos no silêncio desta noite, no silêncio da cruz, no silêncio da morte. É um silêncio que guarda em si o peso do sofrimento do homem rejeitado, oprimido, esmagado, o peso do pecado que desfigura o seu rosto, o peso do mal. Esta noite, no íntimo do nosso coração, revivemos o drama de Jesus, carregado com o sofrimento, o mal, o pecado do homem.
E agora, que resta diante dos nossos olhos? Resta um Crucificado; uma Cruz levantada no Gólgota, uma Cruz que parece determinar a derrota definitiva d’Aquele que trouxera a luz a quem estava mergulhado na escuridão, d’Aquele que falara da força do perdão e da misericórdia, que convidara a acreditar no amor infinito de Deus por cada pessoa humana. Desprezado e repelido pelos homens, está diante de nós o «homem de dores, afeito ao sofrimento, como aquele a quem se volta a cara» (Is 53, 3).
Mas fixemos bem aquele homem crucificado entre a terra e o céu, contemplemo-lo com um olhar mais profundo, e descobriremos que a Cruz não é o sinal da vitória da morte, do pecado, do mal, mas o sinal luminoso do amor, mais ainda, da imensidão do amor de Deus, daquilo que não teríamos jamais  podido pedir, imaginar ou esperar: Deus debruçou-Se sobre nós, abaixou-Se até chegar ao ângulo mais escuro da nossa vida, para nos estender a mão e atrair-nos a Si, levar-nos até Ele. A Cruz fala-nos do amor supremo de Deus e convida-nos a renovar, hoje, a nossa fé na força deste amor, a crer que em cada situação da nossa vida, da história, do mundo, Deus é capaz de vencer a morte, o pecado, o mal, e dar-nos uma vida nova, ressuscitada. Na morte do Filho de Deus na cruz, há o gérmen de uma nova esperança de vida, como o grão de trigo que morre no seio da terra.
Nesta noite carregada de silêncio, carregada de esperança, ressoa o convite que Deus nos dirige através das palavras de Santo Agostinho: «Tende fé! Vireis a Mim e haveis de saborear os bens da minha mesa, como é verdade que Eu não recusei saborear os males da vossa mesa... Prometi-vos a minha vida... Como antecipação, franqueei-vos a minha morte, como que para vos dizer: Convido-vos a participar na minha vida... É uma vida onde ninguém morre, uma vida verdadeiramente feliz, que oferece um alimento incorruptível, um alimento que restabelece e nunca acaba. A meta a que vos convido... é a amizade como o Pai e o Espírito Santo, é a ceia eterna, é a comunhão comigo ... é participar na minha vida» (cf. Discurso 231, 5).
Fixemos o nosso olhar em Jesus Crucificado e peçamos, rezando: Iluminai, Senhor, o nosso coração, para Vos podermos seguir pelo caminho da Cruz; fazei morrer em nós o «homem velho», ligado ao egoísmo, ao mal, ao pecado, e tornai-nos «homens novos», mulheres e homens santos, transformados e animados pelo vosso amor.

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ISITA AO PONTIFÍCIO SEMINÁRIO MAIOR ROMANO
NO DIA DE NOSSA SENHORA DA CONFIANÇA
LECTIO DIVINA
DO PAPA BENTO XVI
Capela do Seminário
Sexta-feira, 4 de Março de 2011
(Vídeo) 

Queridos irmãos e irmãs!
Sinto-me muito feliz por estar aqui, pelo menos uma vez por ano, com os meus seminaristas, com os jovens que estão a caminho rumo ao sacerdócio e serão o futuro presbitério de Roma. Sinto-me feliz por que isto acontece no dia de Nossa Senhora da Confiança, da Mãe que nos acompanha com o seu amor dia após dia e nos dá a confiança de prosseguir rumo a Cristo.
«Na unidade do Espírito» é o tema que guia as vossas reflexões durante este ano formativo. É uma expressão que se encontra precisamente no trecho da Carta aos Efésios, que nos foi proposto, onde são Paulo exorta os membros daquela comunidade a «manter a unidade do espírito» (4, 3). Este texto abre a segunda parte da Carta aos Efésios, a chamada parte parenética, exortativa, e começa com a palavra «parakalo», «exorto-vos». Mas é a mesma palavra que está presente também no termo «Paraklitos», portanto é uma exortação na luz, na força do Espírito Santo. A exortação do Apóstolo baseia-se no mistério de salvação, que ele tinha apresentado nos primeiros três capítulos. Com efeito, o nosso trecho inicia com a palavra «portanto»: «portanto... exorto-vos...» (v. 1). O comportamento dos cristãos é a consequência do dom, a realização do que nos é concedido todos os dias. E, contudo, se é simplesmente realização da doação que nos foi oferecida, não se trata de um efeito automático, porque com Deus estamos sempre na realidade da liberdade e por isso — porque é resposta, também a realização da doação é liberdade — o Apóstolo deve recordá-lo, não pode dá-lo por certo. O Baptismo, sabemo-lo, não produz automaticamente uma vida coerente: ela é fruto da vontade e do compromisso perseverante de colaboração com o dom, com a Graça recebida. E este compromisso é empenhativo, há um preço a pagar pessoalmente. Talvez por isto são Paulo faz referência precisamente neste ponto à sua condição actual: «Recomendo-vos, pois, eu mesmo, prisioneiro no Senhor...» (Ibid.). Seguir Cristo significa partilhar a sua Paixão, a sua Cruz, segui-lo até ao fim, e esta participação no destino do Mestre une profundamente a Ele e fortalece a influência da exortação do Apóstolo.
Entramos agora no fulcro da nossa meditação, encontrando uma palavra que chama de modo particular a nossa atenção: a palavra «chamada», «vocação». São Paulo escreve: comportai-vos «de uma maneira digna do chamamento, da klesis que recebestes» (cf. ibid.). E repete isto logo a seguir, afirmando que «... existe uma só esperança no chamamento que recebestes, a vossa vocação» (v. 4). Neste caso, trata-se da vocação comum a todos os cristãos, ou seja, da vocação baptismal: o chamamento a pertencer a Cristo e a viver n'Ele, no seu corpo. Dentro desta palavra está inscrita uma experiência, ressoa o eco da experiência dos primeiros discípulos, a que conhecemos pelos Evangelhos: quando Jesus passou às margens do lago da Galileia, e chamou Simão e André, depois Tiago e João (cf. Mc 1, 16-20). E ainda antes, no rio Jordão, depois do baptismo, quando, apercebendo-se de que André e o outro discípulo o seguiam, lhes disse: «Vinde ver» (Jo 1, 39). A vida cristã começa com um chamamento e permanece sempre uma resposta, até ao fim. E isto quer na dimensão do crer, quer do agir: tanto a fé quanto o comportamento do cristão são correspondência à graça da vocação.
Falei do chamamento dos primeiros apóstolos, mas pensamos com a palavra «chamamento» sobretudo na Mãe de todas as chamadas, em Maria Santíssima, a eleita, a Chamada por excelência. O ícone da Anunciação a Maria representa muito mais do que aquele especial episódio evangélico, mesmo sendo fundamental: contém todo o mistério de Maria, toda a sua história, o seu ser; e ao mesmo tempo fala da Igreja, da sua essência de sempre; assim como de cada crente em Cristo, de qualquer alma cristã chamada.
Neste ponto devemos ter presente que não falamos de pessoas do passado. Deus, o Senhor, chamou cada um de nós, cada um é chamado pelo seu nome. Deus é tão grande que tem tempo para todos nós, conhece-me, conhece cada um de nós pelo nome, pessoalmente. É um chamamento pessoal para cada um de nós. Penso que devemos meditar várias vezes este mistério: Deus, o Senhor, chamou-me, chama-me, conhece-me, espera a minha resposta como esperava a resposta de Maria, aguardava a resposta dos Apóstolos. Deus chama-me: este facto deveria tornar-nos atentos à voz de Deus, atentos à sua Palavra, à chamada que me faz, para responder, para realizar esta parte da história da salvação à qual me chamou.
Depois são Paulo, neste texto, indica-nos alguns elementos concretos desta resposta com quatro palavras: «humildade», «mansidão», magnanimidade», «suportando-vos uns aos outros no amor». Talvez possamos meditar brevemente estas palavras com as quais se expressa o caminho cristão. No final, voltaremos a falar mais uma vez sobre isto.
«Humildade»: a palavra grega é «tapeinophrosyne», a mesma palavra que são Paulo usa na Carta aos Filipenses quando fala do Senhor, que era Deus e se humilhou, se fez «tapeinos», e desceu fazendo-se criatura, fazendo-se homem, até à obediência da Cruz (cf. 2, 7-8). Portanto, humildade não é uma palavra qualquer, uma simples modéstia, uma coisa qualquer... mas é palavra cristológica. Imitar Deus que vem até mim, que é tão grande que se faz meu amigo, sofre por mim, morreu por mim. Esta é a humildade que se deve aprender, a humildade de Deus. Significa dizer que devemos ver-nos sempre à luz de Deus; assim, ao mesmo tempo, podemos conhecer a grandeza de ser uma pessoa amada por Deus, mas também a nossa pequenez, a nossa pobreza, e deste modo comportar-nos de modo justo, não como donos, mas como servos. Como diz são Paulo: «Não porque pretendamos dominar a vossa fé: queremos apenas contribuir para a vossa alegria» (2 Cor 1, 24). Ser sacerdote, ainda mais do que ser cristão, requer esta humildade.
«Mansidão»: no texto grego é esta a palavra «praütes», a mesma que aparece nas bem-aventuranças: «Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5, 5). E no Livro dos Números, o quarto livro de Moisés, encontramos a afirmação de que Moisés era o homem mais manso do mundo (cf. 12, 3) e, neste sentido, era uma prefiguração de Cristo, de Jesus, que diz de si: «Eu sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). Portanto, também esta palavra, «manso», «humilde», é uma palavra cristológica e exige de novo este imitar Cristo. Porque no Baptismo somos conformados com Cristo, portanto devemos conformar-nos com Cristo, encontrar este espírito do ser mansos, sem violência, de convencer com o amor e com a bondade.
«Magnanimidade», «makrothymia» significa generosidade do coração, não ser minimalistas que dão só o que é estreitamente necessário: demo-nos a nós mesmos com tudo o que pudermos, e cresçamos também nós na magnanimidade.
«Suportando-vos no amor»: é uma tarefa de todos os dias suportar-se uns aos outros na própria alteridade, e precisamente suportando-se com humildade, aprender o amor verdadeiro.
E demos agora um passo em frente. Depois desta palavra do chamamento, segue a dimensão eclesial. Falemos agora da vocação como de uma chamada muito pessoal: Deus chama-me, conhece-me, espera a minha resposta pessoal. Mas, ao mesmo tempo, a chamada de Deus é um apelo em comunidade, é uma chamada eclesial, Deus chama-nos numa comunidade. É verdade que neste trecho sobre o qual estamos a reflectir não se encontra a palavra «ekklesia», a palavra «Igreja», mas sobressai muito mais a realidade. São Paulo fala de um Espírito e de um corpo. O Espírito cria-se o corpo e une-nos como um único corpo. E depois fala da unidade, da cadeia do ser, do vínculo da paz. E com esta palavra faz menção da palavra «prisioneiro» do início: é sempre a mesma palavra, «eu estou em cadeias», «cadeias amarrar-te-ão», mas por detrás está a grande cadeia invisível, libertadora do amor. Nós estamos neste vínculo da paz que é a Igreja, é o grande laço que nos une com Cristo. Talvez devamos meditar também pessoalmente sobre este aspecto: somos chamados pessoalmente, mas num corpo. E isto não é algo abstracto, mas muito real.
Neste momento, o Seminário é o corpo no qual se realiza concretamente o ser num caminho comum. Depois, será a paróquia: aceitar, suportar, animar toda a paróquia, as pessoas, as simpáticas e as que não são, inserir-se neste corpo. Corpo: a Igreja é corpo, portanto tem estruturas, tem também realmente um direito e algumas vezes não é tão simples inserir-se. Sem dúvida, desejamos a realização pessoal com Deus, mas muitas vezes o corpo não nos agrada. Mas precisamente deste modo estamos em comunhão com Cristo: aceitando esta corporeidade da sua Igreja, do Espírito, que se encarna no corpo.
Por outro lado, com frequência talvez sintamos o problema, a dificuldade desta comunidade, começando pela comunidade concreta do Seminário até à grande comunidade da Igreja, com as suas instituições. Devemos ter também presente que é muito bom estar em companhia, caminhar numa grande companhia de todos os séculos, ter amigos no Céu e na terra, e sentir a beleza deste corpo, estar felizes porque o Senhor nos chamou num corpo e nos deu amigos em todas as partes do mundo.
Disse que a palavra «ekklesia» não se encontra aqui, mas sim a palavra «corpo», a palavra «espírito», a palavra «vínculo» e sete vezes, neste pequeno trecho, volta a palavra «um». Assim sentimos como o Apóstolo se preocupa com a unidade da Igreja. E termina com uma «escala de unidade», até à Unidade: Deus é um só , o Deus de todos. Deus é Uno e a unicidade de Deus expressa-se na nossa comunhão, porque Deus é Pai, Criador de todos nós e por isso todos somos irmãos, todos somos um corpo e a unidade de Deus é a condição, é também a criação da fraternidade humana, da paz. Por conseguinte, meditemos também sobre este mistério da unidade e sobre a importância de procurar sempre a unidade na comunhão do único Cristo, do único Deus.
Agora podemos dar um ulterior passo em frente. Se perguntarmos qual é o sentido da palavra «chamada», vemos que ela é uma das portas que se abrem ao mistério trinitário. Até agora falámos do mistério da Igreja, do único Deus, mas sobressai também o mistério trinitário. Jesus é o mediador da chamada do Pai que se realiza no Espírito Santo.
A vocação cristã não pode deixar de ter uma forma trinitária, quer a nível de cada pessoa, quer a nível de comunidade eclesial. O mistério da Igreja está totalmente animado pelo dinamismo do Espírito Santo, que é um dinamismo vocacional em sentido amplo e perene, a partir de Abraão, o primeiro que ouviu a chamada de Deus e respondeu com a fé e a acção (cf. Gn 12, 1-3); até ao «eis-me» de Maria, reflexo perfeito da imagem do Filho de Deus, no momento em que recebe do Pai a chamada para vir ao mundo (cf. Hb 10, 5-7). Assim, no «coração» da Igreja — como diria santa Teresa do Menino Jesus — a chamada de cada cristão é um mistério trinitário: o mistério do encontro com Jesus, com a Palavra que se fez carne, mediante a qual Deus Pai nos chama à comunhão consigo e por isso nos deseja doar o seu Espírito Santo, e é precisamente graças ao Espírito que podemos responder a Jesus e ao Pai de modo autêntico, no âmbito de uma relação real, filial. Sem o sopro do Espírito Santo a vocação cristã simplesmente não se explica, perde a sua seiva vital.
E finalmente a última frase. A forma da unidade segundo o Espírito exige, como disse, a imitação de Jesus, a conformação com Ele na solidez dos seus comportamentos. O Apóstolo escreve, como meditámos: «com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros com caridade», e depois acrescenta que a unidade do espírito deve ser conservada «mediante o vínculo da paz» (Ef 4, 2-3).
A unidade da Igreja não é dada por um «modelo» imposto do exterior, mas é o fruto de uma concórdia, de um compromisso comum a comportar-se como Jesus, em virtude do seu Espírito. Há um comentário de são João Crisóstomo a este trecho, que é muito bonito. Crisóstomo comenta a imagem do «laço», o «vínculo da paz», e diz: «É bonito este vínculo, com o qual nos ligamos quer uns com os outros quer com Deus. Não há uma cadeia que fere. Não causa cãibras nas mãos, deixa-as livres, dá-lhes amplo espaço e uma coragem maior» (Homilias sobre a Epístola aos Efésios 9, 4. 1-3). Encontramos aqui o paradoxo evangélico: o amor cristão é um vínculo, como dissemos, mas um vínculo que liberta! A imagem do laço como vos disse, reconduz-nos à situação de são Paulo, que é «prisioneiro», está num «vínculo». O Apóstolo foi preso por causa do Senhor, como o próprio Jesus, fez-se escravo para nos libertar. Para conservar a unidade do espírito é necessário imprimir ao próprio comportamento aquela humildade, mansidão e magnanimidade que Jesus testemunhou na sua paixão; é preciso ter as mãos e o coração ligados por aquele vínculo de amor que ele mesmo aceitou por nós, fazendo-se nosso servo. Este é o «vínculo da paz». E diz ainda são João Crisóstomo, no mesmo comentário: «Ligai-vos aos vossos irmãos, aqueles assim unidos no amor suportam tudo com facilidade... Assim ele quer que estejamos ligados uns aos outros, não só para estar em paz, não só para ser amigos, mas para todos serem um, uma só alma» (Ibid.).
O texto paulino, do qual meditámos alguns elementos, é muito rico. Pude apresentar-vos só algumas sugestões, que confio à vossa meditação. E rezemos à Virgem Maria, Nossa Senhora da Confiança, para que nos ajude a caminhar com alegria na unidade do Espírito. Obrigado!

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DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS PARTICIPANTES NA PLENÁRIA
DA CONCREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA
Sala do Consistório
Segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Senhores Cardeais
Venerados Irmãos no Episcopado
e no Sacerdócio
queridos irmãos e irmãs!

Dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação nesta visita por ocasião da reunião plenária daCongregação para a Educação Católica. Saúdo o Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito do Dicastério, agradecendo as suas gentis palavras, assim como o Secretário, o Subsecretário, os Oficiais e os Colaboradores.
As temáticas que enfrentais nestes dias têm como denominador comum a educação e a formação, que constituem hoje um dos desafios mais urgentes que a Igreja e as suas instituições são chamadas a enfrentar. Parece que a obra educativa se tornou cada vez mais árdua pois, numa cultura que com demasiada frequência faz do relativismo o próprio credo, falta a luz da verdade, aliás é considerado perigoso falar da verdade, insinuando assim a dúvida sobre os valores básicos da existência pessoal e comunitária. Por isso, é importante o serviço que prestam no mundo numerosas instituições formativas que se inspiram na visão cristã do homem e da realidade: educar é um acto de amor, exercício da «caridade intelectual», que requer responsabilidade, dedicação e coerência de vida. O trabalho da vossa Congregação e as escolhas que fareis nestes dias de reflexão e de estudo certamente contribuirão para responder à actual «emergência educativa».
A vossa Congregação, criada em 1915 por Bento XV, há quase cem anos realiza a sua obra preciosa ao serviço das várias Instituições católicas de formação. Entre estas, sem dúvida, o seminário é uma das mais importantes para a vida da Igreja e, por conseguinte, exige um projecto formativo que tenha em consideração o contexto antes mencionado. Várias vezes realcei o modo como o seminário representa uma etapa preciosa da vida, no qual o candidato ao sacerdócio faz a experiência de ser «discípulo de Jesus». Para este tempo destinado à formação, é exigido um determinado destaque, um certo «deserto», porque o Senhor fala ao coração como uma voz que só se ouve se houver silêncio (cf. 1 Rs 19, 12); mas é exigida também a disponibilidade para viver juntos, amar a «vida de família» e a dimensão comunitári, que antecipam aquela «fraternidade sacramental» que deve caracterizar cada presbítero diocesano (cf. Presbyterorum ordinis8) e que eu quis evocar inclusive na minha recente Carta aos seminaristas«Uma pessoa não se torna sacerdote sozinha. É necessária a “comunidade dos discípulos”, o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos».
Nestes dias estais a estudar também o esboço do documento sobre a Internet e a formação nos seminários. A internet, pela sua capacidade de superar as distâncias e de colocar as pessoas em contacto recíproco, apresenta grandes possibilidades para a Igreja e a sua missão. Com o necessário discernimento para um uso inteligente e prudente, é um instrumento que pode servir não só para os estudos, mas também para a acção pastoral dos futuros presbíteros nos vários campos eclesiais, como a evangelização, a acção missionária, a catequese, os projectos educativos e a gestão das instituições. Também neste campo é de extrema importância poder contar com formadores adequadamente preparados para que sejam guias fiéis e sempre actualizados, a fim de orientar os candidatos ao sacerdócio no uso correcto e positivo dos meios informáticos.
Depois, este ano celebra-se o LXX aniversário da Pontifícia Obra para as Vocações Sacerdotais, instituída pelo Venerável Pio XII a fim de favorecer a colaboração entre a Santa Sé e as Igrejas locais no precioso trabalho de promoção das vocações ao ministério ordenado. Tal evento poderá ser uma ocasião para conhecer e valorizar as iniciativas vocacionais mais significativas, promovidas nas Igrejas locais. É preciso que a pastoral vocacional, além de realçar o valor da chamada universal a seguir Jesus, insista mais claramente sobre o perfil do sacerdócio ministerial, caracterizado pela sua configuração específica com Cristo, que o distingue essencialmente dos outros fiéis e se põe ao serviço deles.
Além disso, iniciastes uma revisão de quanto prescreve a Constituição apostólica Sapientia christiana sobre os estudos eclesiásticos, relativos ao direito canónico, aos Institutos Superiores de Ciências Religiosas e, recentemente, à filosofia. A teologia é um sector sobre o qual se deve reflectir particularmente. É importante tornar cada vez mais sólido o vínculo entre a teologia e o estudo da Sagrada Escritura, de modo que esta seja realmente a sua alma e coração (cf. Verbum Domini31). Contudo, o teólogo não deve esquecer de ser também aquele que fala a Deus. Portanto, é indispensável manter estreitamente unidas a teologia e a oração pessoal e comunitária, especialmente litúrgica. A teologia é scientia fidei e a oração alimenta a fé. Na união com Deus, de qualquer modo, o mistério é saboreado, faz-se próximo, e esta proximidade é luz para a inteligência. Gostaria de realçar também a conexão da teologia com as outras disciplinas, considerando que ela é ensinada nas Universidades católicas e, em muitos casos, nas civis. O beato John Henry Newman falava de «círculo do saber», circle of knowledge, para indicar que existe uma interdependência entre os vários ramos do saber; mas Deus e só Ele tem relação com a totalidade do real; consequentemente, eliminar Deus significa interromper o círculo do saber. Nesta perspectiva as Universidades católicas, com as suas bem delineadas identidade e abertura à «totalidade» do ser humano, podem desenvolver uma obra preciosa para promover a unidade do saber, orientando estudantes e professores para a Luz do mundo, a «luz verdadeira que a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9). São considerações válidas também para as escolas católicas. Antes de tudo, é preciso ter coragem para anunciar o valor «amplo» da educação, para formar pessoas sólidas, capazes de colaborar com os outros e dar sentido à própria vida. Hoje fala-se deeducação intercultural, objecto de estudo inclusive na vossa Plenária. Neste âmbito, requer-se uma fidelidade corajosa e inovativa, que saiba conjugar consciência clara da própria identidade e abertura à alteridade, pelas exigências do viver juntos nas sociedades multiculturais. Também para este fim, emerge o papel educativo do ensino da Religião católica como disciplina escolar em diálogo interdisciplinar com as outras. De facto, ele contribui largamente não só para o desenvolvimento integral do estudante, mas inclusive para o conhecimento do outro, para a compreensão e o respeito recíproco. Para que tais objectivos sejam alcançados deve-se prestar particular atenção à formação dos dirigentes e formadores, não só sob o ponto de vista profissional, mas também religioso e espiritual, a fim de que, com a coerência da própria vida e o envolvimento pessoal, a presença do educador cristão se torne expressão de amor e testemunho da verdade.
Queridos irmãos e irmãs, agradeço-vos quanto fazeis com o vosso trabalho competente ao serviço das instituições educativas. Mantende sempre o olhar fixo em Cristo, o único Mestre, para que com o seu Espírito torne eficaz o vosso trabalho. Confio-vos à materna protecção de Maria Santíssima,Sedes Sapientiae, e de coração concedo a todos a Bênção Apostólica.

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VISITA ÀS CRIANÇAS INTERNADAS NA SECÇÃO DE PEDIATRIA
 DA POLICLÍNICA GEMELLI DE ROMA
DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
Quarta-feira 5 de Janeiro de 2011

Senhor Cardeal
queridos Sacerdotes
Autoridades académicas
dirigentes, pessoal médico
e paramédico
queridas crianças, pais, amigos!
Por que vim aqui hoje, no meio de vós, no dia em que começamos a celebrar a Solenidade da Epifania? Antes de tudo, para dizer obrigado. Obrigado a vós, crianças, que me recebeis: gostaria de dizer que vos amo e estou próximo de vós com a minha oração e o meu afecto, para vos dar a força de enfrentar a doença. Gostaria também de agradecer aos vossos pais, aos parentes, aos Dirigentes e a todos os funcionários da Policlínica, que com competência e caridade cuidam do sofrimento humano; em particular, gostaria de agradecer à equipa desta secção de Pediatria e do Centro de tratamento das crianças com espinha bífida. Abençoo as pessoas, o empenho e estes ambientes, onde se exerce de modo concreto o amor para com os pequeninos e os mais carentes.
Queridas crianças e jovens, quis encontrar-me convosco também para fazer como os Magos, como vós fizestes: os Magos levaram alguns dons a Jesus — ouro, incenso e mirra — para lhe manifestar adoração e afecto. Hoje também eu vos trago um dom, exactamente para que sintais, através de um pequeno sinal, a simpatia, a proximidade e o afecto do Papa. Mas gostaria que todos, adultos e crianças, neste tempo de Natal, recordássemos que o maior dom foi Deus quem ofereceu a cada um de nós.
Olhemos a gruta de Belém, quem vemos no presépio? Quem encontramos? Maria e José, mas sobretudo um menino pequeno, carente de atenção, de cuidados e de amor: aquele menino é Jesus, é o próprio Deus que quis vir sobre a terra para nos mostrar quanto nos quer bem, é Deus que se fez menino como vós, para vos dizer que está sempre ao vosso lado e para dizer a cada um de nós que cada criança tem o seu rosto.
Antes de concluir, não posso deixar de dirigir uma saudação cordial a todos os funcionários e aos que estão internados neste grande Hospital. Encorajo as diversas iniciativas de bem e de voluntariado, assim como as instituições que qualificam o empenho ao serviço da vida; nesta circunstância penso em particular no Instituto Científico Internacional «Paulo vi», que tem como finalidade promover a procriação responsável.
Obrigado de novo a todos! O Papa ama-vos!


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ISCURSO DO PAPA BENTO XVI
AOS MEMBROS DO CAMINHO NEOCATECUMENAL
Sala Paulo VI
Segunda-feira, 17 de Janeiro 2011

Estimados amigos
É-me grato receber-vos e dar-vos as minhas cordiais boas-vindas. Saúdo de modo particular Kiko Argüello e Carmen Hernández, iniciadores do Caminho Neocatecumenal, bem como Pe. Mario Pezzi, enquanto lhes agradeço as palavras de saudação e de apresentação que me dirigiram. Saúdo com profundo afecto todos vós aqui presentes: sacerdotes, seminaristas, famílias e membros do Caminho. Dou graças ao Senhor porque nos oferece a oportunidade deste encontro, em que vós renovais o vosso vínculo com o Sucessor de Pedro, acolhendo novamente o mandato que Cristo Ressuscitado deu aos discípulos: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).
Desde há mais de quarenta anos, o Caminho Neocatecumenal contribui para reavivar e consolidar a iniciação cristã nas dioceses e nas paróquias, favorecendo uma redescoberta gradual e radical das riquezas do Baptismo, ajudando a saborear a vida divina, a vida celeste que o Senhor inaugurou com a sua encarnação vindo ao meio de nós, nascendo como um nós. Este dom de Deus para a sua Igreja põe-se «ao serviço do Bispo como uma das modalidades de prática diocesana da iniciação cristã e da educação permanente na fé» (Estatuto, art. 1 § 2). Como vos recordava o meu predecessor, Servo de Deus Paulo VI, no primeiro encontro realizado convosco em 1974, tal serviço «poderá renovar nas comunidades cristãs de hoje aqueles efeitos de maturidade e de aprofundamento, que na Igreja primitiva eram realizados a partir do período de preparação para o baptismo» (Insegnamenti di Paolo VI, XII [1974], 406).
Nos últimos anos foi empreendido com benefício o processo de redacção do Estatuto do Caminho Neocatecumenal que, depois de um côngruo período de validade «ad experimentum», recebeu a sua aprovação definitiva em Junho de 2008. Outro passo significativo foi dado nestes dias com a aprovação, por obra dos competentes Dicastérios da Santa Sé, do «Directório catequético do Caminho Neocatecumenal». Mediante estas confirmações eclesiais, o Senhor corrobora hoje e confia-vos novamente este instrumento precioso que é o Caminho, de tal modo que, em obediência filial à Santa Sé e aos Pastores da Igreja, possais contribuir com novos impulso e fervor, para a redescoberta radical e jubilosa do dom do Baptismo e oferecer a vossa contribuição original para a causa da nova evangelização. A Igreja reconheceu no Caminho Neocatecumenal um dom particular, suscitado pelo Espírito Santo: como tal, ele tende naturalmente a inserir-se na grande harmonia do Corpo eclesial. Nesta luz, exorto-vos a procurar sempre uma profunda comunhão com os Pastores e com todos os componentes das Igrejas particulares e dos contextos eclesiais, bastante diversificados, em que sois chamados a agir. Com efeito, a comunhão fraterna entre os discípulos de Jesus é o primeiro e maior testemunho em nome de Jesus Cristo.
Estou particularmente feliz por enviar hoje, para várias regiões do mundo, mais de duzentas novas famílias, que se tornaram disponíveis com grande generosidade e partem para a missão, unindo-se idealmente às cerca de seiscentas que já trabalham nos cinco Continentes. Amadas famílias, a fé que recebestes como dom seja aquela luz posta sobre o candelabro, capaz de indicar aos homens o caminho do Céu. Com o mesmo sentimento, enviarei treze novas «missiones ad gentes», que serão chamadas a realizar uma nova presença eclesial em ambientes muito secularizados de vários países, ou em lugares aonde a mensagem de Cristo ainda não chegou. Possais sentir sempre ao vosso lado a presença viva do Senhor Ressuscitado, o acompanhamento de muitos irmãos, assim como a oração do Papa, que está convosco!
Saúdo com afecto os Presbíteros, provenientes dos Seminários diocesanos «Redemptoris Mater»da Europa, e os mais de dois mil Seminaristas aqui presentes. Caríssimos, vós sois um sinal especial e eloquente dos frutos de bem que podem nascer da redescoberta da graça do próprio Baptismo. Nós olhamos para vós com esperança particular: sede sacerdotes apaixonados por Cristo e pela sua Igreja, capazes de transmitir ao mundo a alegria de ter encontrado o Senhor e de poder estar ao seu serviço.
Saúdo inclusive os catequistas itinerantes e aqueles das Comunidades neocatecumenais de Roma e do Lácio e, com carinho especial, as «communitates in missionem». Vós abandonastes, por assim dizer, as seguranças das vossas comunidades de origem e partistes para lugares mais distantes e incómodos, aceitando ser enviados para ajudar paróquias em dificuldade e para ir em busca da ovelha perdida e para a restituir ao aprisco de Cristo. Nos sofrimentos ou na aridez que podeis experimentar, vós sentis que estais unidos ao sofrimento de Cristo na cruz, bem como ao seu desejo de alcançar muitos irmãos distantes da fé e da verdade, para os levar novamente à casa do Pai.
Como escrevi na Exortação Apostólica Verbum Domini«a missão da Igreja não pode ser considerada como realidade facultativa ou suplementar da vida eclesial. Trata-se de deixar que o Espírito Santo nos assimile ao próprio Cristo […] de modo a comunicar a Palavra com a vida inteira» (n. 93). Todo o Povo de Deus é um povo «enviado», e o anúncio do Evangelho constitui um compromisso de todos os cristãos, como consequência do Baptismo (cf. ibid., n. 94). Convido-vos a meditar sobre a Exortação Verbum Dominiponderando de maneira particular onde, na terceira parte do Documento, se fala sobre «A missão da Igreja: anunciar a palavra de Deus ao mundo» (cf. nn. 90-98). Caros amigos, sintamo-nos partícipes no anseio de salvação do Senhor Jesus, na missão que Ele confia a toda a Igreja. A Bem-Aventurada Virgem Maria, que inspirou o vosso Caminho e que vos concedeu a Família de Nazaré como modelo das vossas comunidades, vos permita viver a vossa fé em humildade, simplicidade e louvor, interceda por todos vós e vos acompanhe na vossa missão. Vos sustente também a minha Bênção, que de coração vos concedo, bem como a todos os membros do Caminho Neocatecumenal espalhados pelo mundo.

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DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
À DELEGAÇÃO DA IGREJA UNIDA EVANGÉLICA
 LUTERANA DA ALEMANHA
Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2011

Excelentíssimo Senhor
Bispo regional Friedrich
Amados amigos da Alemanha
Dirijo cordiais boas-vindas a todos vós, representantes da presidência da Igreja Unida Evangélica Luterana da Alemanha, aqui no Palácio apostólico, enquanto me alegro pelo facto de que vós, como delegação, viestes a Roma para o encerramento da Semana de oração pela unidade dos cristãos. Deste modo, vós demonstrais também que todo o nosso anseio pela unidade só pode dar frutos se estiver arraigado na oração comum. Em particular, gostaria de lhe agradecer, estimado Senhor Bispo regional, as palavras que, com grande sinceridade, exprimem os esforços conjuntos em prol de uma unidade mais profunda entre todos os cristãos.
Entretanto, o diálogo oficial entre luteranos e católicos — assim está escrito aqui — pode remontar a mais de cinquenta anos de actividades intensas. Vossa Excelência falou de trinta anos. Julgo que há trinta anos, depois da visita do Papa, demos oficialmente início ao diálogo, mas com efeito já havia muito tempo que dialogávamos. Eu mesmo era membro do «Jaeger-Stählin-Kreis», que nasceu imediatamente após a guerra. Portanto, pode-se falar quer de cinquenta anos quer de trinta. Não obstante as diferenças teológicas que continuam a subsistir sobre questões em parte fundamentais, cresceu um «conjunto» entre nós, que se torna cada vez mais a base de uma comunhão vivida na fé e na espiritualidade entre luteranos e católicos. Aquilo que já foi alcançado corrobora a nossa confiança na continuação do diálogo, porque somente assim podemos permanecer juntos ao longo do caminho que, em definitivo, é o próprio Jesus Cristo.
Portanto, o compromisso da Igreja católica a favor do ecumenismo, como afirmou o meu venerado Predecessor Papa João Paulo II na sua Encíclica Ut unum sintnão é uma mera estratégia de comunicação num mundo que se transforma, mas sim um compromisso fundamental da Igreja a partir da missão que lhe é própria (cf. nn. 28-32).
Para alguns contemporâneos a meta comum da unidade plena e visível entre os cristãos hoje parece estar novamente mais distante. Os interlocutores ecuménicos trazem ao diálogo ideias completamente diferentes sobre a unidade da Igreja. Compartilham a solicitude de muitos cristãos pelo facto de que os frutos da obra ecuménica, principalmente em relação à ideia de Igreja e de ministério, ainda não são compreendidas suficientemente pelos interlocutores ecuménicos. Todavia, embora surjam dificuldades sempre novas, olhemos para o futuro com esperança. Não obstante as divisões entre os cristãos constituam um obstáculo para modelar plenamente a catolicidade na realidade da vida da Igreja, como lhe foi prometido em Cristo e através de Cristo (cf. Unitatis redintegratio4), confiemos no facto de que, sob a guia do Espírito Santo, o diálogo ecuménico, como instrumento importante na vida da Igreja, serve para resolver este conflito. Isto acontecerá, em primeiro lugar, também mediante o diálogo teológico, que deve contribuir para um entendimento sobre as questões ainda insolúveis, que representam um obstáculo ao longo do caminho rumo à unidade visível e à celebração conjunta da Eucaristia como sacramento da unidade entre os cristãos.
Apraz-me afirmar que além do diálogo luterano-católico internacional sobre o tema «Baptismo e a crescente comunhão eclesial», também na Alemanha desde 2009 uma Comissão bilateral de diálogo da Conferência Episcopal e da Igreja evangélica luterana alemã retomou o seu trabalho sobre o tema: «Deus e a dignidade do homem». Este âmbito temático engloba em particular também os problemas que surgiram recentemente em relação à salvaguarda e à dignidade da vida humana, assim como as questões urgentes da família, do matrimónio e da sexualidade, que não podem ser silenciadas nem subestimadas só para não pôr em perigo o consenso ecuménico até agora alcançado. Formulemos votos a fim de que nestas importantes problemáticas relativas à vida não se apresentem novas diferenças confessionais, mas que juntos possamos dar testemunho, ao mundo e aos homens, daquilo que o Senhor nos mostrou e mostra.
Hoje o diálogo ecuménico não pode continuar a ser separado da realidade e da vida na fé, no interior das nossas Igrejas, sem causar prejuízos. Portanto, dirijamos juntos o nosso olhar para o ano de 2017, que nos recorda a divulgação das teses de Martinho Lutero sobre as indulgências, há quinhentos anos. Nessa ocasião, luteranos e católicos terão a oportunidade de celebrar no mundo inteiro uma comum comemoração ecuménica, de defender a nível mundial as questões fundamentais, e não — como Vossa Excelência acabou de dizer — sob forma de uma celebração triunfalista, mas como uma profissão comum na nossa fé no Deus Uno e Trino, na obediência comum a nosso Senhor e à sua Palavra. Temos que atribuir um lugar importante à oração comum e à prece interior, dirigidas a nosso Senhor Jesus Cristo pelo perdão das injustiças recíprocas e pela culpa relativa às divisões. Desta purificação da consciência faz parte o intercâmbio recíproco sobre a avaliação dos 1500 anos que precederam a Reforma e que, portanto, nos são comuns. Por isso, desejamos implorar conjuntamente e de modo incessante a ajuda de Deus e a assistência do Espírito Santo, para podermos dar outros passos rumo à unidade almejada e não descansarmos nos resultados já alcançados.
Ao longo deste caminho somos animados inclusive pela Semana de oração pela unidade dos cristãos deste ano. Recorda-nos o capítulo dos Actos dos Apóstolos: «Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações» (Act, 2, 42). A estes quatro gestos e comportamentos os primeiros cristãos eram assíduos e, por conseguinte, a comunidade crescia com Cristo e dela brotava este «conjunto» de homens em Cristo. Este testemunho, extraordinário e visível ao mundo, da unidade da Igreja primitiva poderia ser também para nós um estímulo e uma norma para o caminho ecuménico comum, inclusive no futuro.
Na esperança de que a vossa visita corrobore ulteriormente a válida colaboração entre luteranos e católicos na Alemanha, imploro para todos vós a graça de Deus e as suas abundantes bênçãos.

 
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DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
À COMUNIDADE DO PONTIFÍCIO COLÉGIO ETÍOPE
 NO VATICANO
Sala dos Papas
Sábado, 29 de Janeiro de 2011

Queridos irmãos e irmãs!
Sinto-me feliz por vos receber nesta jubilosa comemoração do 150º aniversário do nascimento no Céu de são Justino De Jacobis. Saúdo cordialmente cada um de vós, caros sacerdotes e seminaristas do Pontifício Colégio Etíope, que a Providência Divina pôs a viver próximo do túmulo do Apóstolo Pedro, sinal dos antigos e profundos vínculos de comunhão que unem a Igreja na Etiópia e na Eritreia à Sé Apostólica. Saúdo de modo especial o Reitor, Pe. Teclezghi Bahta, a quem agradeço as gentis expressões com as quais introduziu o nosso encontro, recordando as diversas e significativas circunstâncias que o sugeriram. Recebo-vos hoje com afecto particular e, juntamente convosco, apraz-me pensar nas vossas comunidades de origem.
Agora gostaria de meditar sobre a figura luminosa de são Justino De Jacobis, do qual celebrastes o significativo aniversário a 31 de Julho passado. Digno filho de são Vicente de Paulo, são Justino viveu de modo exemplar o seu «fazer-se tudo para todos», especialmente ao serviço do povo abissínio. Enviado com 38 anos pelo então Prefeito da Propaganda Fide, Cardeal Franzoni, como missionário à Etiópia, ao Tigray, trabalhou primeiro em Adua e depois em Guala, onde imediatamente pensou em formar sacerdotes etíopes, dando vida a um seminário chamado «Colégio da Imaculada». Com o seu ministério zeloso trabalhou incansavelmente a fim de que aquela porção do povo de Deus reencontrasse o fervor originário da fé, semeada pelo primeiro evangelizador são Frumêncio (cf. PL 21, 473-80). Justino intuiu com clarividência que a atenção ao contexto cultural devia ser uma via privilegiada sobre a qual a graça do Senhor teria formado novas gerações de cristãos. Ao aprender a língua local e favorecer a tradição litúrgica plurissecular do rito próprio daquelas comunidades, ele também empenhou-se por uma obra ecuménica eficaz. Por mais de vinte anos o seu generoso ministério, primeiro sacerdotal e depois episcopal, dirigiu-se a quantos encontrava e amava como membros vivos do povo a ele confiado.
Pela sua paixão educativa, especialmente na formação dos sacerdotes, pode ser justamente considerado o padroeiro do vosso Colégio; de facto, ainda hoje esta benemérita Instituição recebe presbíteros e candidatos ao sacerdócio, apoiando-os no seu empenho de preparação teológica, espiritual e pastoral. Ao regressar às comunidades de origem ou acompanhando os concidadãos emigrados no estrangeiro, sabei suscitar em cada um o amor a Deus e à Igreja, segundo o exemplo de são Justino De Jacobis. Ele coroou o seu fecundo contributo para a vida religiosa e civil dos povos abissínios com o dom da sua vida, silenciosamente restituída a Deus depois de muitos sofrimentos e perseguições. Foi beatificado pelo Venerável Pio XII a 25 de Junho de 1939 e canonizado pelo Servo de Deus Paulo VI no dia 26 de Outubro de 1975.
Também para vós, estimados sacerdotes e seminaristas, a vida de santidade está traçada! Cristo continua a estar presente no mundo e a revelar-se através daqueles que, como são Justino De Jacobis, se deixam animar pelo seu Espírito. O Concílio Vaticano ii recorda-nos que «Deus manifesta de forma viva aos homens a sua presença e o seu rosto na vida daqueles que, embora possuindo uma natureza igual à nossa, se transformam mais perfeitamente na imagem de Cristo (cf.2 Cor 3, 18). Neles é Deus quem nos fala e nos mostra um sinal do seu Reino» (Const. dog.Lumen gentium50).
Cristo, o eterno Sacerdote da Nova Aliança, que com a especial vocação ao ministério sacerdotal «conquistou» a nossa vida, não suprime as qualidades características da pessoa; ao contrário, eleva-as, enobrece-as e, fazendo-as suas, chama-as a servir o seu mistério e a sua obra. Deus precisa também de cada um de nós «para mostrar aos séculos futuros a extraordinária riqueza da sua graça, pela bondade que teve para connosco em Cristo Jesus» (Ef 2, 7). Não obstante o carácter próprio da vocação de cada um, não estamos separados uns dos outros; ao contrário, somos solidários, estamos em comunhão dentro de um único organismo espiritual. Somos chamados a formar o Cristo total, uma unidade recapitulada no Senhor, vivificada pelo seu Espírito para nos tornar o seu «pleroma» e enriquecer o cântico de louvor que Ele eleva ao Pai. Cristo é inseparável da Igreja, que é o seu Corpo. É na Igreja que Cristo reúne mais estreitamente a si os baptizados e, alimentando-os na Mesa eucarística, torna-os partícipes da sua vida gloriosa (cf.Lumen gentium48). Portanto, a santidade encontra-se no próprio coração do mistério eclesial e é a vocação à qual todos somos chamados. Os Santos não são um ornamento que reveste a Igreja a partir de fora, mas são como as flores de uma árvore que revelam a inesgotável vitalidade da linfa que a percorre. É bonito contemplar a Igreja assim, de modo ascensional rumo à plenitude do Vir perfectus; em maturação contínua, laboriosa e progressiva; dinamicamente impulsionada para o cumprimento pleno em Cristo.
Queridos sacerdotes e seminaristas do Pontifício Colégio Etíope, vivei com alegria e dedicação este período importante da vossa formação, à sombra da cúpula de São Pedro: caminhai com decisão na via da santidade. Vós sois um sinal de esperança, especialmente para a Igreja nos vossos países de origem. Estou certo de que a experiência de comunhão vivida aqui em Roma vos ajudará inclusive a oferecer um precioso contributo para o crescimento e a convivência pacífica das vossas amadas Nações. Acompanho o vosso caminho com a minha oração e, por intercessão de são Justino De Jacobis e da Virgem Maria, concedo-vos com afecto a Bênção Apostólica, que estendo de bom grado às Irmãs de Maria Menina, aos funcionários da Casa e a todas as pessoas que vos são queridas.

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